sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Aloprados, obtusos


Ilimar Franco


Mistificação

Os que me lêem sabem que não participo de campanhas, contra pessoas e partidos, nem contribuo para criar mistificações. Não faço isso porque sou melhor que os outros, mas por temer passar por tolo. Digo isso a propósito da mala de dinheiro encontrada com partidários do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB). E também da tucana de Pouso Alegre que plantou uma falsa testemunha no caso da investigação da origem do dinheiro do Dossiê Vedoin. Isso é uma demonstração de que a burrice não tem cor partidária e que há aloprados para todos os gostos.

Estava na cara, só não viu quem não enxerga

O resultado das eleições de domingo não é nenhuma surpresa para quem tem acompanhado este blog desde que a crise política teve início em junho de 2005.

Desde então tenho advertido que seria um erro basear uma campanha eleitoral na criminalização do presidente Lula. Aqui, e também na coluna que escrevo às segundas-feiras no Globo, várias vezes dei informações sobre o equívoco que seria o discurso de que o governo Lula era ruim e incompetente. Não fui nenhum gênio, apenas apliquei à realidade atual os ensinamentos que foram oferecidos a todos durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Também os petistas cometeram o erro de afirmar que o governo FH era um desastre. Na minha opinião o Brasil pode se orgulhar dos governos Fernando Henrique e Lula.

Muita gente gosta de futebol. Mas a maioria delas não vê o jogo. São incapazes de explicar e traduzir o que está acontecendo no campo. Desse mal padecem até mesmo comentaristas esportivos. Na política é a mesma coisa. Tem gente que escreve sobre política mas não vê o jogo. Por isso, muitos estão surpresos com o resultado das eleições. Estes, que não conseguiram ver o jogo eleitoral, continuam cegos e exibem seu alienamento quando enveredam para explicar a derrota tucana e a vitória petista.

Mas vamos ao que interessa. A coligação PSDB-PFL perdeu as eleições porque baseou toda sua campanha na ética. Qual o problema deste enfoque? O brasileiro é um cidadão corrompido? Não. A população brasileira tem sabedoria, sabe que nesse terreno ninguém tem condições morais de dar lição a ninguém. Esta campanha só poderia dar certo se o PSDB-PFL tivessem a imagem de campeões da ética junto à população. Mas isso não ocorre.

Além do mais, um rápido passeio pela história do país mostra a limitação da ética como bandeira política e o que ela significa no imaginário popular. A UDN, no período anterior à ditadura militar, passou 20 anos brandindo a bandeira da ética. Nunca ganharam uma eleição, mas com seu discurso deram suporte a tentativas de golpes militares (governo JK), a golpes militares (governo Jango). Só tiveram êxito quando se associaram a um líder populista, Jânio Quadros, o breve. O discurso da ética, do mar de lama, levou ao suicídio um dos maiores presidentes da República que o Brasil já teve, Getúlio Vargas. Todos se lembram onde o Brasil foi para quando elegeu Fernando Collor, o Caçador de Marajás. Não se pode reescrever a história de um país. A verdade é que a bandeira da ética no Brasil está associada ao que de pior existe na política nacional.

A oposição perdeu estas eleições, também porque não apresentou propostas novas para o país. Não tinha o que dizer e o que defender sobre o que deve ser feito. A oposição sequer teve a coragem de sair em defesa de suas realizações no governo Fernando Henrique. Esta limitação programática ficou patente no debate sobre as privatizações, ocorrida agora no segundo turno. A campanha de Geraldo Alckmin ficou apoplética, caiu na defensiva, ficou envergonhada de seu legado. Só quando o estrago estava feito, e a desconfiança sobre o que defendia Alckmin se disseminaram, é que os tucanos acordaram para defender a privatização. Os tucanos exibiram muitos sinais contraditórios sobre o que fariam se chegassem ao poder. Por exemplo, o Bolsa Família seria ampliado como afirmou Geraldo Alckmin ou seria desativado por se tratar de uma Bolsa-Esmola como disseram vários líderes da oposição. Faltou clareza e definição à oposição. Faltou aquilo que no marketing se define como "posicionamento".

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