
Chefe de órgão diz que piloto pode ter sido influenciado psicologicamente.
'Na maioria dos acidentes, o fator humano é o que mais aparece', disse.
LEANDRO COLON
Do G1, em Brasília
A falta de um reverso no Airbus da TAM que caiu em São Paulo no último dia 17, matando cerca de 200 pessoas, pode ter influenciado na ação do piloto que comandava a aeronave. A informação foi dada pelo brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), em depoimento à CPI do apagão aéreo da Câmara nesta quinta-feira (26).
Segundo ele, a ausência de um reverso pode ter influenciado psicologicamente o piloto do Airbus a tomar decisões que teriam contribuído para a tragédia. "O reverso pode ter influenciado, sim. A falta de um reverso pode ter influenciado no psicológico do piloto, junto como uma série de outros dados. Na maioria dos acidentes, o fator humano é o que mais aparece, por mais que sejam desenvolvidos bons equipamentos", disse.
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O reverso é um equipamento que fica dentro das turbinas do avião com a função de ajudá-lo a frear. A TAM admitiu que um dos reversos do Airbus 320 que caiu estava desligado, mas tem afirmado que isso não foi fator que colaborou para a tragédia do último dia 17. "O reverso é um acessório", afirmou à CPI na quarta (25) o vice-presidente técnico da TAM, Ruy Amparo.
O chefe do Cenipa comentou ainda o comunicado emitido pela Airbus na terça (24) sobre procedimentos quando um reverso estiver desligado. No comunicado, a Airbus alerta sobre a posição dos manetes (alavancas que controlam a potência das turbinas) nesta situação.
Para Kersul, a Airbus apenas reafirmou uma determinação dada pela própria empresa, embora não descarte vazamento de informação sobre as investigações. "Pode ter ocorrido vazamento, mas não creio nisso. O que Airbus disse foi: cumpram o que eu já disse que era para ser cumprido. Ela só reafirmou um procedimento pré-estabelecido", disse.
Caixas-pretas
O chefe do Cenipa afirmou que uma posição errada do manete pode ter contribuido para o acidente do último dia 17. "É um fator que pode ter contribuÍdo. Se as manetes estavAm em algum lugar diferente, pode ter contribuido. A caixa-preta pode dizer que a posição era essa. É bom checarmos. Esse é o trabalho de cruzar informações", explicou. "Não há suspeitas, mas hipóteses", ressaltou.
Kersul disse que ainda é cedo para fazer qualquer avaliação sobre o acidente e as informações contidas nas caixas-pretas. "Não é adequado darmos muita atenção a um determinado fator, uma determinada velocidade ou ao que o piloto disse num determinado momento. Temos que juntar, sincronizar os dados, do que a tripulação estava falando e como a aeronave estava reagindo", disse.
"São tantas variáveis que qualquer uma deleas analisada separadamente pode levar a uma conclusão errônea. Nós já levantamos todas as hipóteses. É irresponsável adiantar qualquer fator relativo a esse acidente. Não temos ainda dados concretos", ressaltou Kersul. Ele reafirmou que o Cenipa estima em dez meses o prazo para concluir a investigação.
Pedido da CPI
Kersul disse que a Aeronáutica não deve criar obstáculos para entregar à CPI dados das caixas-pretas do Airbus da TAM. A CPI aprovou nesta quinta o requerimento que solicita acesso ao conteúdo das duas caixas-pretas do avião.
Kersul disse, em depoimento aos deputados logo depois da votação desse requerimento, que embora a legislação internacional sobre acidentes aéreos impeça a divulgação desse tipo de dado, a legislação brasileira permite à CPI ter acesso a esse conteúdo.
"A principio, nós não liberaríamos essas informações porque a legislação sobre investigação assim o prevê. Mas a legislação do país está acima de qualquer legislação. E a legislação prevê que a CPI pode ter acesso. Assim que a CPI necessitar de informações, estaremos sempre à disposição", disse.
"O nosso pedido é que quem tiver acesso trate como nós tratamos, com segurança, com cuidado, porque pode afetar pessoas, familias, empresas", afirmou.
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