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A voz do povo é a voz de Deus, mas Nelson Rodrigues já disse que toda unanimidade é burra. As vaias que têm marcado os Jogos Pan-Americanos no Rio parecem oscilar entre os dois princípios, embora o fenômeno ainda precise ser devidamente explicado.
O que parece ocorrer é uma catarse coletiva, que se teve algum sentido no início parece ter ficado sem controle e sem propósito. Esta atitude hostil não é característica dos brasileiros, sempre receptivos a outros povos e ao espetáculo que o esporte proporciona. Gostamos de conhecer e conversar com gente de outros países e gostamos de esporte em geral. Então, por quê a vaia generalizada a qualquer atleta que não seja brasileiro?
As vaias no Pan começaram na festa de abertura, quando o presidente Lula foi surpreendido no Maracanã por uma manifestação contrária jamais enfrentada em seus dois mandatos. Existiram suspeitas de orquestração, mas ali surgiu o primeiro sinal de que havia alguma inconformidade no ar.
“Coisas graves têm acontecido, o que gera descontentamento. Há necessidade de que as coisas sejam ditas e Lula demorou a se manifestar em questões importantes”, analisa a psicóloga Cláudia Corbusier, referindo-se às vaias ao presidente.
Cláudia afirma que em momentos de muita emoção, a catarse se tona possível e pode tomar proporções incontroláveis. “No final, as pessoas já nem sabem porque estão vaiando”.
O país anda mesmo mexido com uma série de situações recentes, que vão da morte de João Hélio, o menino barbaramente arrastado pelas ruas do Rio, aos jovens que espancaram uma doméstica, passando pelo caso sem fim de Renan Calheiros e dois graves acidentes aéreos.
A mistura de fatos tão díspares, envolvendo banalização da violência, corrupção, descaso e crise de valores, gera um caldeirão de revolta, que explode em manifestações coletivas de protesto, como as vaias que se registram agora no Pan.
Seja por que razão for, as vaias tornaram-se incômodas para todos. Não só aos vaiados, mas também para quem vê no esporte uma oportunidade de congraçamento. A manifestação tem soado estranha e negativa para a imagem do país. Neste momento de estupefação, Cláudia Corbusier invoca Bertold Bretch: “Nunca digam é natural para que nada possa parecer imutável”.
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