sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Azenha

Renan Calheiros foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Os negócios dele com o gado passaram batidos. Presidente do Congresso e articulador da coalizão governista, Renan é acusado de ter tido as despesas com a manutenção da amante jornalista e de uma filha fora do casamento por um lobista de uma empreiteira. Curiosamente, em 1989 o então candidato Lula teve seu caso com a enfermeira Miriam Cordeiro revelado às vésperas da eleição. Uma entrevista com Miriam, gravada pela equipe de campanha do candidato Fernando Collor, foi ao ar também no Jornal Nacional, acusando Lula não só de ter sugerido o aborto da filha Lurian mas também de ter feito manifestações racistas quando via atores negros na televisão.

Embora a mídia saiba do filho do ex-presidente FHC com uma jornalista da Globo, o fato não só nunca foi divulgado pela grande mídia brasileira como nunca se perguntou ao político como foram sustentados a mãe e o filho no Exterior. O filho de FHC e as circunstâncias em que ele e a jornalista foram "escondidos" são a maior não-notícia da História recente da mídia brasileira.
No apagão elétrico, que afetou a todos os brasileiros, no governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, a ênfase era numa campanha cívica para convencer a população de que cabia a cada um colaborar.

O apagão aéreo é caos. Falta de planejamento. Culpa do governo. Pouquíssimas menções são feitas ao sistema de hubs implantado pelo duopólio TAM/Gol - que concentra muitos vôos em poucos aeroportos - e ao espetacular crescimento na venda de passagens aéreas.

Qual é a minha conclusão?

O governo pode ser ruim, mas é melhor do que a mídia mostra. Apesar da decepção causada aos eleitores do próprio PT e de ter adotado uma política econômica conservadora, Lula ameaça a hegemonia daqueles que se deram bem com a privataria, é vítima de ódio de classe e desprezado pela elite branca dos Jardins paulistanos e da faixa de terra que vai de Copacabana ao Leblon, no Rio de Janeiro.

Os ressentidos querem mais estado - para bancar os Jogos Panamericanos, levantar empresas falidas e financiar com juros baixos a conversão para o sistema de TV digital - e menos estado - para reduzir a carga tributária, cortar as "migalhas" do Bolsa Família e colocar no ar todo o lixo que quiserem, quando quiserem, desde que dê audiência.

Os muitos defeitos do governo Lula são amplificados e as conquistas são diminuídas com a estratégia de dizer que "poderia ser melhor", "na Índia é melhor", "na China é diferente", "vejam só como é na Rússia" e assim por diante.

Mas essas mesmas comparações não valem quando revelam que "na Suécia não só tem classificação indicativa, como há limite para anúncios durante a programação infantil".

Quando o governo brasileiro tenta regulamentar o assunto, é "censura prévia". Quando autoridades britânicas multam pesadamente emissoras públicas e privadas de tevê por desvios de conduta, a notícia nem sai no Brasil.

Não há conspiração da mídia contra o governo. Não é preciso. É só deixar rolar os interesses de classe.

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