LEILA CORDEIRO
O ex-governador de São Paulo e atual candidato a presidente da República, Geraldo Alckmin, foi profundamente infeliz quando declarou certa vez que "São Paulo não é igual ao Rio em matéria de criminalidade porque eu estou sempre atento tomando providências para evitar o crescimento da violência no Estado". Alckmin partiu em busca de tronos mais altos e deixou a bomba estourar nas mãos do sucessor, o vice Claudio Lembo, já apelidado Picolé de Chuchu II. Lembo herdou do ex-governador a capacidade em produzir declarações infelizes.
Embora veterano na política paulista, Lembo se mostra totalmente despreparado e desajeitado para desempenhar o importante cargo que ocupa. E não esconde de ninguém que está contando os dias para livrar-se da batata quente que lhe colocaram na mão. Uma semana depois da crise, o atual governador desabafou numa solenidade pública "Vamos trabalhar muito juntos, Estado e prefeitura, nesses oito meses que restam, graças a Deus, para melhorar a situação." Questionado pelos jornalistas sobre esse "graças a Deus", ele foi categórico: "Falei isso porque Deus há de me ajudar para que o tempo passe depressa".
E reclamou do estresse que o cargo está lhe causando: "Sou homem de coragem. É uma honra governar São Paulo. Mas você há de admitir que essa honra me teve um custo emocional muito grande". Na véspera, analisando a onda de violência, Lembo culpou, no geral, a realidade social brasileira. E afirmou que "é muito difícil reestruturar os sistemas de defesa de São Paulo, uma sociedade muito flutuante, onde houve um êxodo rural muito grande".
No particular, incomodou a paulistada quatrocentona quando afirmou que a "elite branca" era a culpada pela violência. E deu a espetadela final: "a burguesia precisa deixar de ser cínica e de explorar a sociedade, abrindo a bolsa para reduzir a miséria". Eleonora Mendes Caldeira, ícone da alta sociedade paulista, vestiu a carapuça de dondoca e se defendeu atacando: "Eu olhei as outras pessoas que deram depoimentos, e vi que a "dondoca" só poderia ser eu", disse, "ele deveria estar cônscio da repercussão das declarações que dá. Mostrou-se um neurótico, e ainda arrumou um bode expiatório, a minoria branca".
Outro que caiu de pau no governador Lembo foi um legítimo representante da nobreza paulistana, o folclórico "conde" Chiquinho Scarpa. Ele respondeu com dureza o ataque do governador: "todo derrotado acaba colocando a culpa nos outros". E completou com a seguinte pérola para solucionar o problema da violência em São Paulo: "se cada voltasse para seu estado, tudo funcionaria. O problema é que 80 por cento de votos são de São Paulo e os nordestinos votam errado". Essa foi difícil de engolir.
Seu Chiquinho perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. Alguém já ouviu alguma coisa mais nojenta e discriminatória do que isso? Felizmente, esse cidadão não representa nem de leve a grande maioria da população de São Paulo. Por essas e outras, é que surgem a cada dia novos Marcolas. O líder do PCC, que virou celebridade da noite para o dia, também participa da coluna. Sua frase é assustadoramente realista e nos leva a refletir sobre o futuro da sociedade brasileira: "eu posso entrar numa delegacia e matar um policial, mas um policial não pode entrar na cadeia e me matar, pois é obrigação do Estado me proteger
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