terça-feira, 19 de setembro de 2006

A situação política se mexeu. Terá se mexido também o quadro eleitoral?


Franklin Martins


O estado de ânimo das campanhas de Lula e Geraldo Alckmin ontem não poderia ser mais diferente. Entre tucanos e pefelistas, o clima era de excitação e torcida, com muita gente apostando que o escândalo da compra do dossiê contra José Serra é o empurrãozinho que faltava para levar, na undécima hora, a decisão para o segundo turno. Certa ou errada, a oposição avalia que voltou para o jogo. Está soltando foguetes pela ressurreição inesperada. Tem motivos.


Já entre os petistas, reinava o desconcerto e perplexidade. A versão oficial é de que o partido está sendo vítima de uma armação, mas esta explicação não conseguiu emplacar junto ao coração e às mentes da maioria dos militantes. Os laços internos esgarçaram-se de tal modo nos últimos 18 meses que ninguém bota mais a mão no fogo por ninguém. Gato escaldado tem medo de água fria, e no PT hoje em dia todo mundo desconfia de todo mundo. Apenas num ponto há unanimidade: pelo seu perfil e por sua fidelidade a Lula, a presença de Freud Godoy numa operação como essa não faz sentido – a menos que ele estivesse cumprindo ordens do próprio presidente, no que ninguém acredita. “Alguma coisa não fecha nessa história”, foi o que mais ouvi durante o dia de ontem de dirigentes petistas. Estão aturdidos.

De qualquer forma, tudo indica que Polícia Federal avançará rapidamente nas investigações. Tem em mãos o dinheiro, o dossiê, as gravações das conversas telefônicas e os presos em Cuiabá e em São Paulo. Com tantos elementos reunidos, não há motivo para que ela, em pouco tempo, não esteja em condições de informar à sociedade o que de fato aconteceu nesse episódio rocambolesco. A oposição, ao dirigir suas baterias contra Freud, pretende comprometer Lula – não é a toa que os jornais hoje lembram tanto relação entre Gregório Fortunato e Getúlio Vargas (vale lembrar que a história mostrou mais tarde que, por mais que parecesse inverossímil na época, Gregório não agiu a mando de Vargas). Já os governistas torcem para que Freud consiga enfraquecer a versão de que foi a eminência parda do episódio do dossiê.

De um jeito ou de outro, essa dúvida pode ser esclarecida em três tempos. Gedimar Passos, preso com a dinheirama no hotel em São Paulo, diz que recebeu todas as orientações de Freud há poucos dias. Onde? Quando? Exatamente em que circunstâncias? Freud nega. Ontem, na acareação, Gedimar preferiu ficar calado. Se Freud tiver um bom álibi, que desmonte a versão do outro, poderá se safar. Caso contrário, sua situação ficará muito complicada.

Fora da esfera policial, a dúvida é sobre o impacto do episódio no voto do eleitor. Os principais institutos de pesquisas estão em campo. O Datafolha divulgou números hoje, em que o quadro permanece inalterado, indicando vitória de LULA em primeiro turno.

Ontem à noite, no Canal Livre Eleições, da TV Bandeirantes, perguntei ao diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, se ele achava que o escândalo do dossiê poderia ser a “bomba atômica” capaz de alterar o quadro de estabilidade eleitoral que perdura há semanas, levando a decisão para o segundo turno. Ele respondeu que não, embora não descartasse a possibilidade de que o aprofundamento da crise possa gerar desdobramentos no ânimo de alguns segmentos do eleitorado. Mas até agora, explicou Coimbra, os levantamentos não captaram mudanças significativas nas intenções de voto. Está tudo como estava.

A conferir.

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