terça-feira, 19 de setembro de 2006

Dossiê atinge campanha na hora do pouso, lamentam petistas


Por Ricardo Amaral
Reuters
Em Brasília

Lula se disse "contrariado" com caso, mas se diz pronto para confronto com a oposição

LULA: PRONTO PARA O CONFRONTO

BIOGRAFIA DE LULA

O chamado "caso dossiê" pegou de surpresa a campanha da reeleição, no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se preparava para um "pouso suave" no primeiro turno, como definiu um auxiliar muito próximo do presidente-candidato.

A campanha de Lula tentará sair da defensiva, provavelmente entregando cabeças, informou fonte da direção petista, para manter a perspectiva de vitória em 1o de outubro. O PT calcula que o impacto real do caso não será totalmente captado na pesquisa Datafolha dessa terça-feira, mas na próxima rodada.

As investigações apontam para Jorge Lorenzetti, chefe do "dispositivo de tratamento de informações" do PT. Ele deve ser ouvido pela Polícia Federal e responsabilizado pelo partido. A orientação de Lula ao PT e ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foi de "não abafar nem proteger", disse um interlocutor do presidente-candidato.

Lula embarcou para Nova York no início da tarde de segunda, levando uma avaliação ainda otimista sobre o efeito das acusações contra funcionários do PT e seu assessor pessoal Freud Godoy, na compra de um dossiê que pretendia envolver o ex-ministro José Serra com a máfia dos sanguessugas.


O "Painel" da Folha de S.Paulo desta terça-feira informa que o advogado e ex-policial Gedimar Pereira Passos, que declarou ter negociado para o PT a compra de informações contra os tucanos, foi segurança da campanha de Lula em 2002. Gedimar foi preso pela Polícia Federal na sexta-feira em São Paulo juntamente com Valdebran Padilha, filiado ao PT do Mato Grosso. Com eles a PF apreendeu R$ 1,7 milhão. O dinheiro seria usado na compra de um dossiê que vincularia José Serra, candidato ao governo de São Paulo pelo PSDB, com a máfia das ambulâncias. Leia mais
GEDIMAR: SEGURANÇA DE LULA

FIRMA PRESTOU SERVIÇO A LULA
PETISTA: PONTE DIRCEU-CUT
OPOSIÇÃO QUER TSE INVESTIGUE
À noite, o presidente recebeu de Brasília avaliações mais realistas: o comitê da reeleição ficou paralisado, a oposição ocupou espaços, a Justiça Eleitoral foi acionada e o noticiário da TV voltou a expor "companheiros" de Lula na mira da polícia, como nos tempos do mensalão.

"A oposição fracassou ao tentar reviver o ambiente negativo do mensalão com velhos personagens, e agora apela a uma suposta nova denúncia, com novos nomes, para ver se cola", disse um auxiliar próximo de Lula antes do embarque.

Lula viajou apostando na possibilidade de que a acusação à direção do PT, feita pelo ex-policial Gedimar Pereira Passos, poderia vir a se demonstrar uma "armação contra o PT". Estava seguro, inclusive, de que seria falsa a acusação contra Freud, apontado por Gedimar como mandante da compra do dossiê.

À noite, no entanto, a teoria da armação estava enfraquecida, praticamente descartada, pela revelação de que Gedimar trabalhava no "setor de informações" da campanha, chefiado pelo ex-sindicalista bancário Lorenzetti, outro amigo de Lula e seu churrasqueiro pessoal.

A notícia de que Gedimar, preso sexta-feira com 1,7 milhão de reais, era um "analista" sob comando do churrasqueiro presidencial foi confirmada pelo presidente do PT, Ricardo Berzoini, numa entrevista de apenas oito minutos.

"O caso do dossiê dos Vedoins vai pegar a depender da TV. E quem assistiu aos telejornais ontem e hoje de manhã pode facilmente concluir: o povão, classes D e E, a maioria do eleitorado, deve ainda estar por fora do assunto", escreve o jornalista Fernando Rodrigues em seu blog no UOL. Leia o comentário na íntegra.
FERNANDO RODRIGUES: POR ORA, "POVÃO" ESTÁ PERDIDO

A entrevista, na qual Berzoini insistiu na tese da "armação", foi o único e breve sinal de vida da campanha de Lula durante todo o dia, depois de um final de semana em que o presidente-candidato reuniu cerca de 80 mil pessoas (números do PT) em seis comícios no Nordeste e no Pará.

"Passamos o dia inteiro tratando internamente de um assunto péssimo, justamente no melhor momento de toda a campanha", lamentou outro colaborador, pedindo anonimato como quase todas as fontes habituais de notícias no comitê da reeleição, no governo e na direção do PT.

O envolvimento de Gedimar e sua ligação com o churrasqueiro Lorenzetti também fragilizam a avaliação inicial do comando lulista, que tratou o "dossiê Serra" como um episódio da disputa eleitoral de São Paulo, marcadamente agressiva, entre PT, PSDB e o PMDB de Orestes Quércia.

O "analista de informações" e seu chefe teoricamente não teriam de se envolver na disputa paulista. Também teoricamente, Lula não teria o que ganhar a essa altura, jogando lama em Serra, com respingos em Geraldo Alckmin, candidato tucano à Presidência.

"Seria como se um maratonista, chegando à frente no sprint final, decidisse voltar três quilômetros atrás para discutir com o segundo colocado", comparou o auxiliar que falou com o presidente-candidato antes do embarque.

(Por Ricardo Amaral)

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