segunda-feira, 4 de setembro de 2006

A um mês das eleições para presidente, Luiz Inácio Lula da Silva coleciona a dianteira em todas as pesquisas de intenção de voto - Estado/Ibope, Datafolha, CNT/Sensus, Vox Populi e TV Globo/Ibope - , apesar de, na última, ter tido uma queda de 1% na simulação de primeiro turno e de 3% na de segundo. Todas elas apontam, porém, que Lula ganharia no primeiro turno, se o pleito fosse hoje.

Até agora não há escândalo ou denúncia que consiga trincar sua imagem. É como se Lula estivesse envolvido por uma película de politetrafluoretileno - aquela que não deixa a comida grudar na panela. Pelo menos por enquanto, tem escapado pelas bordas das sujeiras relacionadas ao PT ou ao seu governo. “Quantos presidentes chegariam aonde estamos hoje, com a aceitação que temos hoje, depois que passamos por tudo isso?”, questionou o próprio chefe da Nação na segunda-feira passada, em um encontro com intelectuais em São Paulo. Sem negar a existência do mensalão, Lula completou: “Todo mundo achou que nós tínhamos acabado. Mas ressurgimos mais fortes do que nascemos”. Como se explica esse efeito fênix? E o efeito teflon? O Aliás convidou estudiosos da política nacional para refletir sobre esse favoritismo do candidato-presidente.

Os elevados índices e a força de Lula entre as camadas de baixa renda comportam explicações objetivas. De um lado, o momento positivo que a economia brasileira vem atravessando - graças à estabilidade conquistada no governo anterior e a um ambiente internacional excepcionalmente favorável. De outro, o Bolsa-Família, por meio do qual Lula tornou praticamente cativo o eleitorado pobre do Nordeste.
A meu ver os fatores decisivos são, primeiro, a capacidade de comunicação do Lula, que realimenta no povão a idéia de que ele ‘é como nós’; segundo, esse clima ideológico de ‘purgação de pecados sociais’, a consciência culpada pela má distribuição da renda e da riqueza no Brasil, criado principalmente pela Igreja Católica. De umas três décadas para cá, o bordão tem sido esse, não obstante o seu simplório anticapitalismo e sua total carência de perspectiva histórica. Por ser Lula um presidente de origem humilde e o PT um partido retoricamente identificado com os necessitados, a sociedade inteira, inclusive grande parte da classe média, lhes tem concedido o benefício da dúvida. Desde sua fundação, o PT vestiu esse figurino de superego, e é fácil ver como, nos escândalos de 2005 e 2006, ajudou a ‘frear’ a indignação popular contra a corrupção, uma vez que manifestá-la equivalia a cobrar as responsabilidades do presidente e de seu partido. Não demandou a aplicação rigorosa das leis, como ocorreria com qualquer outro governo..”

NINGUÉM VOTA EM HERDEIROS

“Lula se mantém no topo da pesquisas porque, em primeiro lugar e aos olhos de uma grande maioria da população, não está fazendo um governo ruim. Ruim é seu principal adversário. Geraldo Alckmin não tem presença. Ele escolheu uma tática tosca de apresentação ao se mostrar como herdeiro de Covas. Ninguém vota em herdeiros. Além disso, Covas não era um líder de massas. A memória mais recente que se tem do tucanato é a de Fernando Henrique Cardoso. Essa eleição, para mim, está polarizada: é um contra ou a favor de Lula, e um contra ou a favor de FHC.”

O DESTINO DAS CLASSES

“Se ele é avaliado positivamente pelas faixas mais pobres, também o é por uma vasta classe média. Um esquematismo vulgar afirmaria que a classe média tende a se bandear para o centro e para a direita. Isso não é verdade! Uma parte radicalizada tende para Heloísa Helena, mas o grosso vai com Lula. A classe alta, por sua vez, é inteiramente oportunista, não tem nenhum caráter. Deve se posicionar de uma maneira muito casuística, muito pragmática. A burguesia vem obtendo lucro com o atual governo. Pode até dar dinheiro ao Alckmin, mas vota no Lula.”

APOSTANDO NO FAVORITO

“Verdade seja dita: brasileiro gosta de votar em quem vai ganhar. Não somos exatamente um povo competitivo, como o americano. A questão é o subdesenvolvimento político, ou seja, a baixa consciência em relação a programas, alianças políticas, etc. O Lula já aparece como vencedor - e de um eleitorado que está sendo atendido com medidas emergenciais, paliativas, assistencialistas, seja lá o nome que se queira dar. O voto obrigatório também não ajuda muito. Nos países de voto livre, há uma série de outras variáveis que leva o cidadão a se manifestar nas urnas.”

INTUIÇÕES ÓTIMAS

“Sanguessuga e mensalão são nomes que pegaram. As pessoas entendem que alguém está roubando, que alguém está recebendo por fora. Ao mesmo tempo, se um sanguessuga asfaltou a rua ou levou uma ambulância para o município carente, o cidadão, ainda que desconfiado de que aquela ambulância custou cinco vezes mais, vota no candidato. O personalismo na política é tão grande no Brasil que impede a visão global da ética pública. Esquece-se que recurso público é tirado das necessidades do povo para privilégio de alguns. Os escândalos não pegaram em Lula porque todo caso de carisma é exaltação de persona. Não existe carisma sem personalismo. Lula tem isso de forte, sempre teve.
Quando fala de improviso, mostra um talento extraordinário para transformar o discurso solene em algo que o povo entende. Faz todo o sentido usar metáforas de futebol no país do futebol. Se FHC tentasse algo do gênero, soaria demagogo, mas Lula é do povo, veio do povo, parece sincero e honesto. Conheço gente que está muito aborrecida com ele, mas diz que não quer conversar com Lula porque tem medo de ficar encantada novamente.”

CAMPO PARA AVENTUREIROS

“FHC foi eleito nas águas do real. As águas de Lula são duas, e nos extremos. Ele agrada aos setores dominantes do capital financeiro e agrada ao povão. A maior dificuldade dele é conquistar a classe média, e ele tem grande interesse nisso. Afinal, política assistencialista e compensatória pode ser feita por outro tipo de Collor. O discurso populista pode ser à direta e à esquerda. Se ele não conquistar a classe média com argumentos fortes e políticas universais, o campo estará aberto para qualquer aventureiro. Para o Lula, não são apenas estes quatro anos. Pela idade, ele pode esperar a continuação da carreira política.”

MILITÂNCIA FIEL

“Os intelectuais continuam muito divididos. Alguns estão francamente contra Lula desde o início do mandato. Outros passaram pelo governo e ficaram muito decepcionados. Outros saíram por ocasião da expulsão de Heloísa Helena. Outros continuam identificados com o grupo de FHC. Num segundo mandato, acho que os intelectuais não terão vez. Lula será obrigado a fazer muitos acordos, conciliações. Foi péssimo ele ter se desvinculado do partido. Ele é muito importante para o PT, e vice-versa, na medida em que o partido oferece história, generosidade, energia. Nós que criamos e lutamos por esse partido durante 25 anos não vamos jogar fora a criança com a água do banho. Lula sabe que pode contar com uma militância petista fiel nestas eleições.”

Nenhum comentário:

Marcadores