quinta-feira, 17 de julho de 2008

RABO PRESO

Constrangidos, tucanos recuam na CPI dos Grampos



Os deputados do PSDB na Comissão Parlamentar de Inquérito das Escutas Telefônicas, a CPI dos Grampos, resolveram não pagar para ver e constrangidos deixaram de lado nesta quarta (16) os requerimentos de convocação do ex-ministro Luiz Gushiken e o ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, nomes ligados ao PT que teriam sido vítimas de escutas telefônicas no exercício de suas funções. Caso os tucanos persistissem na idéia, os governistas tinham requerimentos prontos para convocar nada menos do que quatro integrantes da cúpula do governo Fernando Henrique Cardoso que aturam a favor de Daniel Dantas no processo de privatização do sistema Telebrás, segundo revelaram na época grampos telefônicos.



São eles: o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros; o presidente do BNDES, André Lara Rezende; Pérsio Árida, sócio do Opportunity; e Pio Borges, vice do BNDES.



Os requerimentos não são simples peças regimentais de convocação, o deputado Luiz Couto (PT-PB), autor deles, foi fundo no que ele denominou de nascimento do esquema Daniel Dantas.



“Tudo começou em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, quando o senhor Daniel Dantas começou a dedicar-se à tarefa de amealhar recursos de fundos de pensão de empresas estatais e do BNDES, para atuar no processo de privatização de empresas controladas pelo estado. Além do fundo nacional, Daniel Dantas aliou-se ao Citibank e constituiu também um fundo para investidores estrangeiros, com sede na Ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal”, argumenta o petista na sua justificativa.



Dono do Opportunity, Daniel Dantas foi mentor do processo de aquisição de várias empresas nacionais. Entre elas, três foram resultantes da cisão da Telebrás: Brasil Telecom, Teleming Celular e Telenorte Celular.



“Participações, arrematadas num dos mais controversos leilões públicos de ações ocorridos no pais. Entretanto, ainda em 1998, o mercado financeiro se perguntava sobre como um banqueiro jovem, à frente de um grupo com menos de cinco anos de existência poderia ter amealhado tantos recursos dos Fundos de Pensão. Pairavam questões e desconfiava-se da existência de alavancagem ou preferência política por parte do governo de Fernando Henrique em relação a Daniel Dantas”, lembrou.



Citou trechos de diálogos obtidos por grampos telefônicos e publicados pela Carta Capital e o jornal Folha de S.Paulo na época. As conversa entre os membros da cúpula envolveu o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso.



“Temos que fazer os italianos na marra, que estão com o Opportunity. Combina uma reunião para fechar o esquema. Eu vou praí às 6h30 e às 7horas a gente faz a reunião. Fala pro Pio que vamos fechar (os consórcios) daquele jeito que só nós sabemos fazer”, diz Mendonça de Barros para André Lara Resende, sobre a intenção de operar em favor do consórcio integrado pelo Opportunity e a Telecom-Itália.



“Vai lá e negocia, joga o preço para baixo. Depois, na hora, se precisar, a gente sobe e ultrapassa o limite”, diz em outro trecho André Lara Resende para Pérsio Arida, sócio do Opportunity.



Nas conversas Mendonça de Barros, André Lara Resende, Pio Borges e Pérsio Árida combinam como pressionar a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, para que feche com “os italianos” e o Opportunity.



FHC nos grampos



O deputado petista argumentou que o diálogo mais importante é quando André Lara Rezende, um dos autores do Plano Real, diz ao presidente Fernando Henrique que é necessário forçar o fundo de pensão estatal Previ a entrar no consórcio do Opportunity. FHC considera “aventurismo” e “arriscado” o negócio ser fechado com outro consórcio. Ela fazia referência ao consórcio Telemar, de Carlos Jereissati que também negociava com a Previ



Eis o trecho da conversa entre os dois:

André Lara Rezende - Então, o que nós precisaríamos é o seguinte: com o grupo do Opportunity, nós até poderíamos turbiná-lo, via BNDES Par. Mas o ideal é que a Previ entre com eles lá.
Fernando Henrique - Com o Opportunity?
Lara Rezende - Com o Opportunity e os italianos.
FHC – Certo.
Lara Rezende - Perfeito? Porque aí esse grupo está perfeito.
FHC - Mas... e por que não faz isso?
Lara Rezende - Por que a Previ tá... tá do outro lado.
FHC - A Previ?
Lara Rezende - Exatamente. Inclusive com o Banco do Brasil que ia entrar com a seguradora etc. que diz, não, isso aí é uma seguradora privada porque...
FHC - ... Não.
Lara Rezende - Então, é muito chato. Olha, quase...
FHC - ...Muito chato.
Lara Rezende - Olha, quase...
FHC -Cheira a manobra perigosa.
Lara Rezende - Mas é quase explícito.
FHC - Eu acho.
Lara Rezende - Quase explícito.
FHC - Eu acho.
Lara Rezende - Então, nós vamos ter uma reunião aqui, estive falando com o Luiz Carlos, tem uma reunião hoje aqui às 6h30. Vem aqui aquele pessoal do Banco do Brasil, o Luiz Carlos etc. Agora, se precisarmos de uma certa pressão...
FHC - ...Não tenha dúvida.
Lara Rezende - A idéia é que podemos usá-lo aí para isso.
FHC - Não tenha dúvida.
Lara Rezende - Tá bom.

O documento de quatro páginas traz mais informações sobre o envolvimento de tucanos com Daniel Dantas em grampos ilegais, provavelmente feito a partir da sede do BNDES, o que, segundo Luiz Couto, seria suficiente para convocar os envolvidos a dar explicações na CPI dos Grampos. Pelo visto, relembrar os fatos não agradou aos tucanos.



De Brasília

Iram Alfaia

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