sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Brasileiro aprendeu votar

O improvável “fato novo”

Luciano Siqueira *

 

Isso não é de agora, pelo menos eu já vi muitas vezes – inclusive do lado de cá do balcão, melhor dizendo, em nosso campo de forças. Instalada uma situação de evidentes e aparentemente incontornáveis dificuldades, a peleja eleitoral caminhando para o desenlace indesejável (para quem se encontra em franca inferioridade), marqueteiros e “estrategistas” jogam suas fichas no que se convencionou chamar de “fato novo”. “O que pode acontecer que mude a tendência do eleitorado?”, põem-se a especular.

Ou seja: se o discurso não convence, se a correlação de forças é claramente desfavorável e a derrota se anuncia, sobra como alternativa salvadora (sic) uma denúncia grave, um erro crasso do adversário, qualquer coisa assim. E se é verdade que fatos inesperados já mudaram o curso imediato da História – o chamado acaso, de que Engels chegou a se ocupar em seus escritos -, quase nunca ocorre o tal “fato novo” capaz de mudar o evolver da luta eleitoral. Sobretudo porque não passam, via de regra, de tentativas artificiosas de desmoralizar o oponente ou de gerar, de última hora, dúvidas quanto à lisura das forças adversárias.

No atual quadro eleitoral brasileiro, aqui e acolá se constata isso, a busca de algo capaz de embaralhar a cabeça dos eleitores. E se o estoque de maldades guardado nas gavetas do núcleo PSDB-DEM-PPS de há muito se esvaziou, a grande mídia – o chamado PIG – se encarrega de urdir a trama. Ou a suposta fabricação de dossiês contra Serra e os tucanos, atribuídas a gente ligada ao PT, não é a versão mais corriqueira disso? E olhe que poder grande mídia tem, e muito. Veja, Rede Globo e quejandos se comunicam com milhões de brasileiros, disseminando versões distorcidas dos acontecimentos.

Mas se nada disso tem surtido efeito, vale a suposição de que a realidade concreta do cotidiano das pessoas pesa muito mais do que a parafernália midiática: se a maioria dos brasileiros experimenta e enxerga melhoria em sua condição de vida decorrente das ações do atual governo, forja-se uma espécie de blindagem subjetiva em relação ao presidente Lula – alvo principal dos ataques em nada menos que oitos anos – e à candidatura governista. Quanto mais batem, ou destilam maledicências, mais cresce a popularidade do presidente e a tendência à opção pela continuidade traduzida na ascendente tendência a votar em Dilma.

Daí decorre uma consequência por todos os títulos indesejada pelas elites reacionárias e pela grande mídia: o amadurecimento do eleitorado, que a cada pleito parece evoluir em sua capacidade de discernir entre o certo e o errado e de separar o joio do trigo.

 

 

* Médico, vereador em Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

 

Nenhum comentário:

Marcadores